Cativa-me!

Era mais um daqueles dias que a hora passa e a gente nem nota. Eu tinha um encontro naquela tarde, marcado para depois do expediente no meu café favorito. Antes de responder a mensagem confirmando presença, confesso que pensei se estava bonita o suficiente para enfrentar (outra vez) aquele caso mal resolvido de 4 anos atrás.
Me preocupei também se minha roupa estava levemente amarrotada; se meu cabelo tinha ficado um pouco desgrenhado; e se meu perfume se destacaria quando ele viesse me cumprimentar com um beijo no rosto. Mas não me importei; eu estava pronta. Mais por dentro do que por fora; decidida a não me importar com máscaras e disfarces. Eu estava armada para enfrentar aquele fantasma que havia desaparecido há tanto tempo.
Entrei no carro, e antes que eu pudesse virar a chave, senti o celular vibrando no meu colo. Era o meu fantasma, se dissipando mais uma vez. Naquele momento, pensei em ir pra casa comer a pizza que estava na geladeira há dois dias. Mas, era como se eu sentisse que algo esperava por mim naquele café.
Sentei na mesa mais distante da porta, como se estivesse me escondendo do fato de estar desacompanhada. Mas na verdade, eu não estava. Tirei da bolsa o meu livro favorito e pedi um café coado cítrico. Enquanto degustava, sem pressa, cada gota daquele sabor suave e sem amargor, eu devorava as páginas do meu surrado “O Pequeno Príncipe”.
“- (…) Se tu queres um amigo, cativa-me!
– Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
– É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto…”
Nesse instante, notei que dois olhos, pequenos e castanhos, me observavam. Eu não pude ver seu rosto, escondido no encosto da cadeira da mesa à frente e pela pouca iluminação daquele ambiente aconchegante. Mas aqueles olhinhos me fitavam tão profundamente, que era como se eles pudessem ler os meus pensamentos. Soltei um leve sorriso, e ele me retribuiu com um aceno. Acenei de volta.
Enquanto ele saía de trás do seu esconderijo, disfarçando o sorriso, eu observava atenta cada detalhe daquele rostinho milimetricamente perfeito. Nariz pontudo; bochechas não muito cheias, mas rosadas; furinho no queixo; e uma pintinha charmosa no lado direito da testa. Ele era único. E então percebi que eu também era.
“- Se alguém ama uma flor da qual só exista um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para fazê-lo feliz quando as contempla. Ele pensa ‘Minha flor está lá, em algum lugar…’”
Percebendo a nossa comunicação não falada, a mãe do garotinho deu um leve puxão para que ele se sentasse corretamente. Talvez ela tenha achado que aquele pequeno príncipe estava incomodando a minha leitura; mas mal sabia ela, que sem nenhuma explicação, aquele breve contato visual já tinha mudado o meu dia.
Então ele escorregou para debaixo da mesa, e pude notar que segurava alguma coisa em uma de suas mãos. A mãe pediu para que ele voltasse a sentar, mas como num ato de coragem e teimosia, ele veio ao meu encontro. Abaixei o meu livro enquanto tentava decifrar o que ele escondia com as mãozinhas para trás, e num movimento súbito, ele revelou o que foi fazer ali.
Meus olhos se arregalaram surpresos quando ele me entregou uma florzinha branca, colhida diretamente do arranjo de mesa. Segurei aquela flor como se fosse a coisa mais preciosa que eu havia recebido. Sorri, agradeci, e ele saiu correndo de volta para a mãe. Ela se virou e pediu “desculpa pelo incômodo”. Apenas mostrei o presente que o principezinho tinha me dado, e ela o abraçou.
Coloquei a flor no meio do meu livro, pensando em como a minha sorte tinha mudado naquela cafeteria encantada. Era uma decisão que eu havia tomado, junto com aquele café ácido e marcante. A partir daquele dia, eu não deixaria mais que nenhum fantasma do meu passado voltasse a atormentar a minha paz. Não sem ter realmente me cativado, como fez aquele pequeno príncipe.
Ele seguiu tomando seu milkshake de chocolate como se nada tivesse acontecido. Já eu, não era mais a mesma.
“Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.
Mas tu não a deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”.

* Com trechos extraídos do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry

4 comentários em “Cativa-me!

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